“Out there, there’s a world outside of Yonkers…”

julho 1, 2008 by

 

Saí da sessão de Wall•e na sexta-feira com duas certezas: precisava assistir-lo novamente (o que acabei fazendo dois dias depois) e, sim, a Pixar conseguiu de novo. Ou melhor, foi além. Wall•e é uma obra-prima. É difícil chegar a essa conclusão, mas de tempos em tempos surgem obras que conseguem esse feito, com frescor e genialidade.

Se as animações, principalmente as em 3D, já não estavam com seu foco no público infantil, Wall•e vem consolidar ainda mais essa linguagem um pouco menos acessível, principalmente para quem espera uma história fofa e ponto. Há as partes bonitas, sim (com direito a uma das cenas mais belas do cinema, com Wall•e e Eva nos últimos minutos do filme), mas, além disso, Andrew Stanton (diretor de Procurando Nemo, minha (ex-)animação favorita) decidiu arriscar, fez os primeiros 20 minutos do filme em ritmo de documentário, flagrando  o robozinho fazendo seu trabalho na terra (muitas vezes como se houvesse um monitoramento por toda a cidade). Por conta disso, planos e ângulos, dignos de um grande diretor, faz muito bem toda a poesia cinematográfica. De fundo, nessa história futurista, citações de outra época, como o musical Hello, Dolly! (1969), de Gene Kelly, e Louis Armstrong, fazem a analogia perfeita do que se passa dentro do pequeno Wall•e. Por ser o último robô da terra, ele carrega em si uma grande personalidade, coisa que os humanos acabaram se esquecendo. Conhecendo-o aos poucos, Wall•e ganha qualquer platéia quase sem falar, (repete apenas o nome do robô por quem se apaixona), assim como fazia rir e emocionar Buster Keaton e Charles Chaplin.

 

A história que se desenrola numa outra parte do filme é redonda e uma das mais inteligentes trazidas na tela. Não entra em detalhes burocráticos e faz da mensagem ecológica alicerce da narrativa, e não um discurso panfletário. As questões sobre os limites da comunicação entre os seres humanos, que refletem no declínio da humanidade, são discutidas silenciosamente no filme, somente nos detalhes – e isso já é de tirar o chapéu, o longa não perde o ritmo, nem fica chato. Pelo contrário, só cativa mais e faz com que se fique pensando no filme. Isso, vindo de uma animação, só faz crescer ainda mais o sorriso quando eu lembro.

 

Blow-up

fevereiro 28, 2008 by

Outro dia revi Blow-up (no Brasil, Depois Daquele Beijo), de Michelangelo Antonioni. 

Após aquela partida de tênis um tanto insólita, apareceu o The End e eu, mais uma vez, fiquei parado tentando absorver toda força daquele filme.  Antonioni não escolhe histórias para contar, prefere revelar mensagens, expor as angústias e os males que assolam intrinsecamente cada um ou até mesmo toda a sociedade. No meio dessa visão do mundo moderno, em pleno anos 60, ninho da revolução cultural e social, a contracultura fervilhava com idéias e questionamentos. Embora não seja porra-louca e nem tenha ecos da alma hippie, Blow-up é um das histórias mais fiéis de uma época, justamente por trazer um outro lado. Londres, onde se passa o filme, também é uma cidade fria e seca, e os anos 60, na verdade, estiveram mergulhados em um niilismo genuíno, reflexo dos ideais capitalistas e da globalização desenfreada. Com toda essa frivolidade, há certo distanciamento do que é real, do que verdadeiramente acontece. Com a estética em primeiro plano, as pessoas começam a basear sua realidade naquilo em que se é relatado, fotografado, gravado… E quando se vivencia nada é revelado aos olhos viciados.  

Em seu primeiro filme em língua inglesa, Antonioni não se deixa intimidar e mascara seu filme de uma maneira que todos gostariam de ver: um colorido exuberante, trilha sonora sensacional assinada por um alucinado Herbie Hancock e tudo que era moda naquela época. Uma jovem Jane Birkin até apareceu nua em um papel pequeno, chocando os mais puritanos em 66 (a Warner cortou inexplicavelmente essa cena do dvd, causando furor nos fãs). Mas na verdade, todas as seqüências e ângulos (que por si só já é uma aula de cinema) fazem enxergar além da primeira impressão.

Como Thomas (David Hemmings), o fotógrafo blasé, descobre através de um suposto assassinato: Não basta só ver, tem que enxergar.

Sangue Negro (There will be blood)

fevereiro 18, 2008 by

Sangue Negro é um filme difícil.

There Will Be Blood

Paul Thomas Anderson é um dos diretores que eu mais adimiro e essa foi minha maior(senão a única) motivação para comprar o ingresso, já que eu não acreditava que petróleo me manteria “alí” por 2 horas e meia. Puro preconceito meu.

A sequência inicial já mostra a que veio. Não espere o mesmo PT Anderson de outrora. A fotografia (tão caracteristica nos outros títulos do diretor) tem um cuidado único e grita a diferença. O ocre toma a tela de uma forma tão bela quanto no título nacional Abril Despedaçado. A ausência de fala nesse início nos apresenta Daniel Plainview (personagem de Daniel Day-Lewis), e sua determinação e sorte vão mudar o rumo da sua história. O corte é feito para anos depois, Daniel agora faz um discurso que nos mostra que sua realidade é outra (o close no ator durante o discurso é talvez a tomada que mais lembre o PT de antes).

A trama mostra as agruras do processo de extrasão do petróleo, e a ambição do Sr. Plainview vai crescendo junto a quatidade de barris que ele extrai. E a tradução nacional do título começa a fazer sentido, pois o sangue vai se misturan ao petróleo em vários momentos.

A entrada do(s) personagen(s) gêmeos – Paul e Eli Sunday – é confusa e é o unico senão do roteiro na minha opnião. Não há diferença entre eles. Poderia creditar esta falha ao ator Paul Dano, mas a sequência em que Eli exorcisa uma senhora com problemas de saúde é uma das mais belas de todo o filme.

Mas eu só estou comentando o que eu vi, porque se eu começar a descrever o que ouvi (ou não), falarei então do maior mérito do filme: a trilha. A trilha é esquisita, eu concordo. É também cansativa as vezes, eu concordo. Mas é dela o mérito dos momentos de maior tensão e conexão com quem está assistindo. Como durante explosão da torre, que se casa com a descoberta da surdês do filho. Foda demais.

O saldo final é positivo. Mas é preciso disposição e atenção para se aventurar nesta história que vai extrair de você questionamentos sobre fé e ambição.