
Saí da sessão de Wall•e na sexta-feira com duas certezas: precisava assistir-lo novamente (o que acabei fazendo dois dias depois) e, sim, a Pixar conseguiu de novo. Ou melhor, foi além. Wall•e é uma obra-prima. É difícil chegar a essa conclusão, mas de tempos em tempos surgem obras que conseguem esse feito, com frescor e genialidade.
Se as animações, principalmente as em 3D, já não estavam com seu foco no público infantil, Wall•e vem consolidar ainda mais essa linguagem um pouco menos acessível, principalmente para quem espera uma história fofa e ponto. Há as partes bonitas, sim (com direito a uma das cenas mais belas do cinema, com Wall•e e Eva nos últimos minutos do filme), mas, além disso, Andrew Stanton (diretor de Procurando Nemo, minha (ex-)animação favorita) decidiu arriscar, fez os primeiros 20 minutos do filme em ritmo de documentário, flagrando o robozinho fazendo seu trabalho na terra (muitas vezes como se houvesse um monitoramento por toda a cidade). Por conta disso, planos e ângulos, dignos de um grande diretor, faz muito bem toda a poesia cinematográfica. De fundo, nessa história futurista, citações de outra época, como o musical Hello, Dolly! (1969), de Gene Kelly, e Louis Armstrong, fazem a analogia perfeita do que se passa dentro do pequeno Wall•e. Por ser o último robô da terra, ele carrega em si uma grande personalidade, coisa que os humanos acabaram se esquecendo. Conhecendo-o aos poucos, Wall•e ganha qualquer platéia quase sem falar, (repete apenas o nome do robô por quem se apaixona), assim como fazia rir e emocionar Buster Keaton e Charles Chaplin.
A história que se desenrola numa outra parte do filme é redonda e uma das mais inteligentes trazidas na tela. Não entra em detalhes burocráticos e faz da mensagem ecológica alicerce da narrativa, e não um discurso panfletário. As questões sobre os limites da comunicação entre os seres humanos, que refletem no declínio da humanidade, são discutidas silenciosamente no filme, somente nos detalhes – e isso já é de tirar o chapéu, o longa não perde o ritmo, nem fica chato. Pelo contrário, só cativa mais e faz com que se fique pensando no filme. Isso, vindo de uma animação, só faz crescer ainda mais o sorriso quando eu lembro.

